Quando eu questiono cada detalhe de uma atividade política conduzida por companheiras mulheres, mas não percebo erros gritantes na forma de organização dos meus companheiros homens.
Quando eu falo de divisão sexual do trabalho, mas, nas atividades do coletivo, acabo sempre na fala, na teoria ou na articulação política, enquanto as mulheres ficam com o cuidado, a organização e o trabalho invisível.
Quando não olho para os meus próprios comportamentos autodestrutivos e irresponsáveis, enquanto as mulheres ao meu redor seguem sendo puxadas para cuidar de mim e lidar com as consequências do que eu faço.
Quando eu falo muito sobre liberdade afetiva, mas espero que as pessoas com quem me relaciono façam todo o trabalho emocional de lidar com minhas incoerências.
Quando, em espaços políticos, foco meu olhar e minha atenção em outros homens, sufocando o espaço e impedindo a participação de mulheres e dissidências de gênero e sexualidade no debate.
Quando digo que luto contra o machismo, mas sigo organizando minha disponibilidade afetiva e política a partir da lógica de quem eu quero pegar.
Quando eu defendo a autonomia das mulheres, mas me incomodo quando elas não me escolhem ou não validam minha posição política.
Quando falo em socialização do cuidado e na centralidade das crianças, mas, na prática, as mulheres da minha vida pessoal seguem sobrecarregadas com o trabalho que eu não faço.
Quando eu me identifico como não monogâmico, mas uso isso como desculpa para não ter responsabilidade emocional e, nas minhas intervenções políticas, nunca sequer elaboro sobre esse aspecto.
Quando eu busco mulheres para acolher minhas questões emocionais, mas não as reconheço como referências políticas.
Quando eu digo que não acredito em posse, mas ajo como se o tempo, o cuidado e a disponibilidade das pessoas com quem me relaciono estivessem sempre à minha disposição.
Quando minhas reflexões políticas nascem de conversas profundas com mulheres, mas, nas minhas conclusões, só cito homens.
Quando eu falo de cuidado coletivo, mas só estou disponível quando é confortável para mim.
Quando eu incentivo mulheres a participarem da política, mas fico desconfortável quando elas disputam liderança, direção ou linha política.
Quando eu me disponibilizo completamente para companheiras que estão dentro dos padrões estéticos que me despertam desejo, mas sou grosso, impaciente ou indiferente com aquelas que não se enquadram nesses mesmos critérios.
Quando eu percebo uma situação de rivalidade entre mulheres — muitas vezes produzida pela distribuição injusta das cargas de trabalho e do reconhecimento político — e não faço nada para socializar o problema ou compreendê-lo a partir de outra perspectiva.
Quando eu não perco a oportunidade de dizer “o verdadeiro problema é de classe” toda vez que algo é colocado a partir de uma perspectiva de gênero.
Mariane Regina Salles Panek
@panekpsi
Psicóloga Comunitária
CRP 08/32713
18/03/2026