A redução de danos surge, historicamente, como uma abordagem de saúde pública pautada em evidências científicas, construída a partir das décadas de 1980 e 1990 diante da necessidade de enfrentar os impactos sociais e sanitários do uso de drogas e outras práticas que produzem consequências de grande responsabilidade individual e coletiva. Diferente das práticas baseadas na abstinência e no controle moral, a redução de danos reconhece a complexidade dos contextos de vida e aposta na autonomia e no cuidado coletivo como caminhos possíveis para a promoção da saúde.
Ela nos ensina que todo gesto de cuidado, individual ou coletivo, pode e deve ser um ato político. Vivemos em um modo de produção que fabrica sofrimento e m0rt3 como parte de sua estrutura. A precarização do trabalho, da vida comunitária e de tudo aquilo que um dia foi sinônimo de segurança, hoje nos joga ladeira abaixo, e deixa a vida cotidiana de difícil manutenção. Cada passo parece nos empurrar de volta pra um mundo de escravidão que já deveria ter sido superado, onde subjetividade e coletividade não existem, e cada pessoa vira só mais uma engrenagem de uma máquina sanguinária de produção.
Solidão, salário que não paga nem a semana, violência política, falta de tempo, falta de ar, falta de rede, falta até de mundo pra pisar.
“Nós nos tornamos uma comunidade humana estranha a si mesma, indiferente a quantos estão morrendo e vivendo uma fúria consumista. Parece que a nossa barriga é maior que a nossa vontade e garganta. O mundo está chapado de tanto consumo. E está todo mundo empapuçado com o que chamei de “doente”. É uma doença que afeta a capacidade interna de cada um de nós de despertar o poder interior. Tem zumbi para todo lado. É daí que se origina a necropolítica. Ela não é uma coisa que só se maneja no campo das gestões da política. É também uma força obscura que as pessoas admitem, cultivam e andam com ela por aí...”
Ailton Krenak - Carta Capital
O capitalismo funciona no sequestro do desejo, que não é mais coletivo, é individual. Ele impõe pequenas doses de prazer, cria dependência do consumo, exige produtividade constante sem te dar nenhuma ferramenta para isso, e nos deixa quebrados depois. É como se o sistema organizasse todos os fluxos de desejo para que nada escape da sua lógica. Tudo tem que passar por ele. Tudo vira produto, principalmente nós.
A meritocracia e as regras morais atravessam nossas existências de forma sutil, violenta e constante. Está presente na alimentação, no exercício físico, na maternidade, no trabalho e nas formas de se relacionar. Vivemos sob a exigência constante de sermos produtivos, eficientes e impecáveis, como se qualquer deslize invalidasse o processo. Tudo ou precisa ser perfeito, ou não serve.
Agir na redução de danos no capitalismo é aceitar fazer o que dá, hoje. entendendo que não é culpa sua estar vivendo o apodrecimento de um modo de produção que (des)organizou a vida até aqui, e tem a sua estrutura em cima da destruição de tudo que existe. E tamanho sofrimento coletivo não cabe nas siglas de um diagnóstico.
Não conseguiu malhar a semana toda, mas foi um dia?
ótimo.
Não conseguiu comer como gostaria, mas incluiu um vegetal ou fruta?
ótimo.
Não conseguiu verbalizar o que queria, mas não teve uma crise?
ótimo.
Não conseguiu visitar um amigo, mas mandou uma mensagem carinhosa?
ótimo.
Está em um dia ruim e só quer ver TV, comer uma comidinha gostosa e chorar?
tudo bem também.
É necessário retomar a comunidade, produzindo resistência e organização política, modificar a estrutura ao mesmo tempo que se mantém vivo enquanto sujeito, coletividade e espécie. Estamos em guerra.
Reduzir danos é resistir à lógica de destruição e morte, é afirmar a vida e o tempo da natureza, em um sistema que insiste na negação como método.
Mariane Regina Salles Panek
@panekpsi
Psicóloga Comunitária
CRP 08/32713