A Luta Antimanicomial é a luta contra a ideia de que algumas pessoas podem ser trancadas, isoladas ou violentadas em nome da “saúde mental” ou da “normalidade”. Ela existe porque, ao longo da história, quem manda na sociedade sempre escolheu excluir quem não se encaixava no que era considerado normal. Mesmo antes de receber esse nome, essa luta já estava presente na resistência de quem foi silenciado, tratado como problema e afastado da convivência social, assim como na ação de famílias, comunidades e trabalhadores que sempre questionaram por que alguns eram isolados enquanto outros nunca eram. O que muda ao longo do tempo não é a violência, mas a forma como ela se apresenta e como a resistência se organiza.
Desde muito tempo, pobres, mulheres vistas como rebeldes, pessoas sem trabalhos padrões e quem não seguia regras religiosas ou morais sempre foram afastadas da convivência social. Mas foi na Europa que essa exclusão passou a ser chamada de "cuidado". Durante grandes epidemias, como a lepra e a peste, pessoas doentes eram isoladas para não contagiar outras. Quando essas doenças diminuíram, o isolamento não acabou, apenas mudou de alvo.
Com a imposição do que viria a se consolidar como capitalismo, regras passaram a reorganizar a vida social, desestruturando modos de existência mais artesanais e coletivos e produzindo diferentes formas de sofrimento. Ao longo desse processo, esse sofrimento passou a ser lido e tratado como um problema individual, deslocando o foco das causas estruturais e produzindo a ideia de sintoma.
Em contextos marcados pela pobreza, pela fome, pela exploração e pela violência, observa-se a intensificação de manifestações de sofrimento psíquico, como crises psicóticas e outras situações que, em articulação com a negligência do poder público, contribuem para o aumento do número de pessoas vivendo nas ruas. Outras pessoas simplesmente não conseguiam, ou não conseguem, se manter dentro das regras rígidas de trabalho e disciplina impostas desde as origens do capitalismo, frequentemente atravessadas por formas de trabalho escravo.
Existiram navios no final da Idade Média e início da Modernidade que eram cheios de pessoas com essas características, conhecidos como “naus dos loucos”, lançadas ao mar como forma de afastamento do convívio social. Milhares morreram nesse processo. Posteriormente, essa lógica passou a assumir uma forma considerada mais aceitável, o que iniciou a ideia mais institucional que temos hoje: os sanatórios e hospitais psiquiátricos. Embora tivessem aparência de hospital, funcionavam, na prática, como prisões.
Isso não significa negar que o sofrimento exista. Significa dizer que a sociedade escolheu responder a ele com violência. Outras culturas, como muitas culturas indígenas e povos tradicionais, sempre conviveram com fenômenos como ouvir vozes, estados alterados de consciência e sofrimentos intensos de maneira coletiva, em liberdade, com explicações culturais e comunitárias. A ideia de trancar pessoas não veio dessas culturas, veio da Europa colonial.
No Brasil, essa lógica chegou com força depois da abolição da escravidão, que libertou no papel, mas não garantiu terra, trabalho ou dignidade. O Estado passou a tratar pessoas negras, pobres e indígenas como perigosas ou doentes. Os manicômios viraram depósitos de gente considerada indesejada para a "nação" que se formava.Lá, foram parar pessoas pobres, mulheres insubmissas, pessoas em situação de rua e usuários de drogas, atingindo de forma especialmente violenta travestis e pessoas trans. Ser LGBTQIAPN+ já foi oficialmente tratado como doença, e muitas pessoas foram internadas à força apenas por existirem. Durante a ditadura militar, esses espaços tornaram ainda mais explícito o que sempre foram: prisões políticas. Pessoas comunistas, socialistas, quem questionava o sistema ou eram vistas como ameaça ao poder, eram silenciadas dentro desses muros.
Manicômios e campos de concentração se estruturam a partir de uma mesma lógica de poder e revelam funcionamentos cada vez mais próximos. Em ambos, há um investimento ideológico e propagandístico que transforma determinados grupos em inferiores, perigosos ou indesejáveis. Essa produção não ocorre de forma espontânea, mas é sustentada por discursos oficiais, científicos, morais e midiáticos que constroem uma narrativa de ameaça à ordem social. A propaganda cumpre papel central nesse processo, mobilizando o medo, a moralidade e a ideia de proteção coletiva para obter apoio popular ao confinamento. Assim, o confinamento deixa de parecer violência e passa a ser apresentado como necessidade social.
Por isso é importante entender que o manicômio não é só hospital psiquiátrico e nunca acabou. Manicômio é uma ideia. É a ideia de que existem pessoas “normais” e pessoas “anormais”, e que aquelas consideradas anormais precisam ser afastadas para que o sistema continue funcionando. Essa lógica está na família, na escola, no trabalho, na religião e no Estado.
Quando alguém é isolado do convívio social, deixa de ser visto como gente de verdade e vira apenas uma ideia na cabeça das chamadas “pessoas normais”. Isso acontece hoje com a população em situação de rua, que muitas vezes é tratada como não-humana justamente porque a sociedade não convive com ela. A falta de convivência cria medo, preconceito e ódio. Essa é a lógica de afastar, criminalizar e isolar quem não interessa ao sistema capitalista.
No século passado, essa violência começou a ser enfrentada de forma organizada. Foi nesse período que a Luta Antimanicomial ganhou esse nome, após cerca de 30 anos de mobilização com manifestações, greves, denúncias e organização dos trabalhadores, usuários e familiares. No Brasil, ficou impossível esconder o que eram os manicômios, especialmente a Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, com seu período mais violento entre as décadas de 1930 e 1970, hoje conhecida como o Holocausto Brasileiro, um verdadeiro depósito de gente, onde milhares de pessoas morreram de fome, frio, maus-tratos e abandono.
Depois de décadas de luta, em 2001, foi aprovada a Lei da Reforma Psiquiátrica (10.2016), acompanhando um movimento que aconteceu no mundo todo. Essa lei proibiu (pelo menos no papel) a lógica manicomial como política de Estado, e determinou que o cuidado em saúde mental deve acontecer em liberdade, no território, com serviços como os CAPS, equipes multiprofissionais e acompanhamento contínuo. Estabeleceu que a internação deve ser apenas a última alternativa, usada quando todas as outras possibilidades se esgotarem, preferencialmente em leitos de hospitais gerais, por tempo curto. Nos casos de internação involuntária, a lei exige comunicação ao Ministério Público, justamente para evitar abusos.
O problema é que essa lei nunca recebeu o investimento necessário para funcionar de verdade. Faltaram CAPS, equipes, condições de trabalho e políticas sociais que sustentassem o cuidado em liberdade. Nenhum governo garantiu isso de forma real, nem os de direita, nem os que se diziam de esquerda. Sem investimento, a lógica manicomial continuou viva, apenas mudando de forma.
A chamada guerra às drogas faz parte dessa mesma lógica. Ao longo da história humana, as pessoas sempre usaram substâncias em rituais, na cultura, na cura e no prazer. Foi no capitalismo que isso virou negócio e forma de controle, inclusive uma forte justificativa para se retirar a autonomia de uma pessoa e acabar em um hospital psiquiatrico, mesmo comprovadamente De um lado, drogas legais são vendidas para dopar, anestesiar e manter as pessoas produzindo. Do outro, drogas ilegais servem de desculpa para prender, matar e controlar, principalmente a população pobre e negra. A guerra às drogas nunca foi sobre cuidado, sempre foi sobre lucro e prisão.
Um levantamento do Conselho Municipal Antidrogas (COMAD) de Araraquara (SP) revelou que "dependentes químicos abandonam o tratamento em 77% das internações." Em outros anos, esse índice chegou a 95%, evidenciando que a internação não resolve o problema. A reincidência permanece elevada, reforçando o caráter ineficaz e repetitivo desse modelo
A IDEOLOGIA MANICOMIAL SÓ VAI ACABAR ATRAVÉS DE UMA REVOLUÇÃO
Por isso, a Luta Antimanicomial não luta apenas contra prédios e muros. Ela luta contra uma sociedade que transforma o sofrimento causado pela pobreza e pela exploração em problema individual, lógica que sustenta o capitalismo. Tudo o que o pobre faz é visto como erro, desvio ou fracasso, enquanto a riqueza é tratada como virtude, mérito e até como algo divino. Assim, cria-se uma imagem demonizada do pobre e uma imagem sagrada do rico, naturalizando a violência, a exclusão e o encarceramento dos de baixo.
Hoje, os manicômios não acabaram. Alguns ainda existem como hospitais psiquiátricos, funcionando normalmente. Outros aparecem disfarçados, como os manicômios modernos, especialmente as chamadas “comunidades terapêuticas”. Financiadas com dinheiro público e ligadas a igrejas ou interesses privados, lucram por quantidade de pessoas presas. Nesses lugares, pessoas continuam sendo isoladas, afastadas da família, obrigadas a trabalhar como nos Campos de Concentração, silenciadas e privadas de direitos. Antes foram navios, depois hospitais, agora essas instituições. A forma muda, mas a violência é a mesma.
O capitalismo não é sobre tecnologia, consumo ou progresso. Quem produz tudo o que existe são os trabalhadores, mas esse sistema transforma o trabalho de muitos em riqueza para poucos. Enquanto alguns vivem no luxo, viajando de jatinho, outros não têm nem sapato, nem comida, nem moradia, e ainda são tratados como vagabundos, perigosos ou doentes. Em vez de enfrentar a causa do sofrimento, a resposta é sempre transformar a dor em negócio. Surgem diagnósticos cada vez mais caros, uma indústria farmacêutica bilionária que lucra ao medicar a vida inteira das pessoas, e manicômios que recebem dinheiro por cada pessoa internada. São verdadeiras máquinas de lucro, das quais quem ganha jamais abrirá mão sem uma resposta realmente radical.
A Luta Antimanicomial defende o cuidado em liberdade, mas sabe que ele não se realizará de verdade dentro desse sistema, porque liberdade não gera lucro. Não basta reformar, humanizar ou maquiar. Só será possível acabar com os manicômios quando cair o sistema que precisa deles para existir. Isso só será alcançado com a derrubada do sistema capitalista por meio de uma revolução, como outros sistemas já caíram na história, porque junto com ele cai toda uma cultura de exploração e controle. Sem isso, o manicômio sempre volta, apenas muda de forma.
Mariane Regina Salles Panek
@panekpsi
Psicóloga Comunitária
CRP 08/32713