Explorando as múltiplas dimensões do desejo

Uma análise à partir do Dia dos Namorados e da Esquizoanalise

Ao analisar o Dia dos Namorados, podemos entender como essa data é influenciada por fatores históricos, culturais, comerciais e sociais. A origem do Dia dos Namorados tem raízes em tradições e eventos históricos de diferentes países. No Brasil, a data foi criada por um publicitário chamado João Doria em 1948, inspirado pelo Valentine's Day. No entanto, no Brasil, ela também está associada ao Dia de Santo Antônio, conhecido como o santo casamenteiro. Em outros países, como Estados Unidos, Reino Unido e Portugal, o Valentine's Day tem origem no Dia de São Valentim, um padre romano que foi condenado à morte por realizar casamentos secretos.

O Dia dos Namorados é visto como uma oportunidade para expressar afeto e amor romântico. Para os casais, é uma ocasião especial para celebrar seu relacionamento, trocar presentes, cartões e mensagens. Além disso, a data tem um significado social, destacando a importância dos relacionamentos amorosos e do amor romântico na vida das pessoas. Essa data é amplamente promovida pela indústria do comércio e da mídia, que se beneficiam economicamente dela. O comércio em geral é impactado, desde grandes estabelecimentos até pequenas lojas, restaurantes, floriculturas e outros negócios, que oferecem produtos e serviços temáticos para atrair os consumidores. A mídia desempenha um papel importante na construção e divulgação do Dia dos Namorados, através de propagandas, campanhas e programas especiais que reforçam a ideia de presentear e comemorar a data.

As formas de celebração variam de acordo com as diferentes culturas e identidades. Além dos casais heterossexuais, casais do mesmo sexo também celebram seus relacionamentos nessa data. Além disso, existem diversas expressões de gênero e sexualidade que influenciam as celebrações, levando a diferentes rituais, símbolos e formas de demonstrar afeto. A análise semiótica desempenha um papel fundamental para entender como essa data se tornou tão significativa. Ela revela como o consumo é percebido como uma expressão de afeto e entender essa perspectiva é crucial para compreender como essa data trás um simbólico que reforça estereótipos presentes em nossa construção de subjetividade e relacionamentos.

Qual tipo de interpretação somos moldados a fazer dos nossos desejos?

Na série "Mad Men", há um momento interessante durante um jantar entre Don Draper, um publicitário, e Rachel Menken, uma empresária proprietária de uma loja de departamentos influente. Nessa cena, ocorre um diálogo intrigante sobre o amor. É importante destacar que a série retrata a década de 1960, uma época permeada por um ambiente sexista. Além disso, é crucial observar a influência da publicidade na construção do chamado "sonho americano". Nesse contexto, a publicidade criava idealizações em formato de propaganda, promovendo uma visão machista que prejudicava diretamente personagens como Rachel, apesar de ela ser herdeira de uma loja rica e independente.

Com um ar de desafio, Rachel questiona o conceito de amor utilizado por Don em suas campanhas, desencadeando uma resposta provocativa do publicitário: "O amor foi criado por caras como eu para vender meia calça para pessoas como você". A década de 1960 foi marcada por uma forte presença de estereótipos de gênero e desigualdades entre homens e mulheres. As mulheres eram frequentemente retratadas como consumidoras influenciáveis, cujo papel principal estava ligado ao cuidado do lar e à aparência física. Esse contexto sexista se refletia tanto na sociedade em geral quanto na indústria da publicidade, na qual as campanhas frequentemente reforçavam papéis tradicionais de gênero e promoviam produtos com base em estereótipos. A fala do personagem revela a influência da publicidade na construção do chamado "american dream" e sua conexão com as percepções sobre o amor e outros sentimentos. Don, como publicitário, entendia o poder persuasivo da propaganda e como ela podia moldar as aspirações e desejos dos consumidores. Através de suas campanhas, Don buscava vender não apenas produtos, mas também a ideia de um estilo de vida idealizado, um sonho americano construído sobre bases consumistas e apelos emocionais.

Ao afirmar que o amor foi criado por profissionais como ele para vender produtos como a meia calça, Don revela a visão que as grandes indústrias criam sobre os sentimentos, e não o que eles de fato são. Esse romantismo é instrumentalizado como uma estratégia de marketing para impulsionar vendas, e a abordagem de Don Draper ilustra como a publicidade, naquela época e até os dias atuais, muitas vezes utiliza o amor e outros sentimentos como um meio de incentivar o consumo, reforçando a ideia de que a felicidade e a realização estão diretamente relacionadas à posse de certos produtos.

Em 2019, O Boticário, renomada marca de cosméticos, lançou uma campanha publicitária intitulada "Onde tem amor tem beleza". Com essa iniciativa, a empresa buscou estabelecer uma conexão entre o amor e a beleza, promovendo um novo posicionamento que abrangia públicos mais diversos, incluindo a comunidade LGBTQIA+, que anteriormente não recebia destaque nas campanhas da marca. No entanto, O Boticário criou estratégias para fazer essa introdução de forma sutil, a fim de não perder o público conservador que sempre consumiu seus produtos. A campanha teve como propósito transmitir a mensagem de que o amor é um fator intrínseco à beleza. De acordo com o posicionamento da marca: 

"Só algo autêntico, verdadeiro e poderoso como o amor poderia se multiplicar para tornar O Boticário a marca de beleza mais amada e preferida dos brasileiros. Sentimento presente no seu DNA, que conecta toda a rede de colaboradores e parceiros em cada uma das etapas de produção. Do desenvolvimento de pesquisas ao fim do ciclo do produto, a empresa tem como objetivo ampliar seu impacto positivo na vida das pessoas e no meio ambiente."

Ao analisarmos essa peça publicitária, surgem questionamentos relevantes sobre qual amor a empresa está se referindo e quem define os padrões de beleza e vaidade. Além disso, devemos refletir sobre quem tem o direito de escolher como ser visto e amado. Embora pareça comum e óbvio que uma marca de cosméticos use seus produtos para alcançar seu público, no contexto capitalista, isso raramente é a única intenção.

É importante notar como a construção do discurso da campanha busca associar a marca como a mais presente entre a classe trabalhadora. A linguagem utilizada nas propagandas visa se conectar diretamente com esse público, ampliando a ideia de amor para incluir outros interesses que a marca tem com relação a sua imagem, como aspectos organizacionais e sua suposta relação positiva com o meio ambiente. É válido questionar se as práticas da Boticário em relação ao meio ambiente são verdadeiramente sustentáveis ou se são apenas estratégias para melhorar sua imagem e atrair mais clientes. Também podemos questionar se essas práticas são capazes de promover uma mudança efetiva na consciência e no comportamento da sociedade, além de observar se essas práticas não contradizem a própria essência da Boticário como uma empresa capitalista. A campanha não apresenta ações concretas que abordem efetivamente os problemas relacionados ao meio ambiente ou às condições de trabalho, apesar de dizerem que o amor para eles se reflete nisso. O foco é utilizar a linguagem para direcionar a percepção das pessoas sobre o amor e relacioná-lo ao consumo de seus produtos sem peso na consciência ou dúvida.

Devemos sempre lembrar que uma campanha publicitária, especialmente em grandes marcas, é elaborada por várias pessoas, incluindo publicitários e profissionais de marketing. Embora não sejam beneficiados pela mais-valia dessas instituições, esses profissionais buscam exercer seu trabalho com sinceridade. No entanto, o trabalho desses profissionais é moldado por propósitos maiores estabelecidos pelas empresas, que têm recursos financeiros suficientes para utilizar todas as estratégias disponíveis para alcançar seus objetivos finais. É importante destacar a diferença entre as mulheres revendedoras de marcas de cosméticos, por exemplo, e as campanhas publicitárias criadas por essas marcas. As revendedoras dependem dessas campanhas existentes e precisam ajustar suas vidas para levar esses produtos a pessoas que não frequentam shoppings, mas que são influenciadas por esse discurso e consomem maquiagem e produtos estéticos.

Devemos compreender que as campanhas publicitárias são construídas dentro de uma lógica de mercado, buscando lucratividade e promovendo uma imagem sempre positiva da marca. Ao analisarmos essas campanhas, é essencial questionar os propósitos subjacentes e considerar a diversidade de perspectivas que podem existir além do que está sendo apresentado. A primeira ação nacional da agência Heads, responsável pela campanha, apresenta uma narrativa inspirada em fatos reais, buscando estabelecer uma conexão emocional com diversos públicos. A estratégia foi cuidadosamente desenvolvida para englobar tanto o público conservador, que a marca não desejava perder, quanto outros segmentos que desejavam alcançar.

Inspirado em uma história real, nele, um senhor conta que no alto de seus 80 anos decidiu fazer um curso de maquiagem. Comenta sobre suas dificuldades, uma vez que os colegas de curso — todos mais jovens — tinham mais talento e vocação. Ele, no entanto, tinha “o motivo mais importante do mundo”, seu amor. E explica que havia prometido à esposa, quando ela havia começado a perder a visão, que jamais a deixaria perder a vaidade. Assim, é ele quem, desde 2017, continua maquiando a esposa, uma vez que ela já não conseguia mais fazer isso sozinha. (Meio&Mensagem, 2019) 

Com o objetivo de despertar sentimentos e emoções que ressoassem com diferentes públicos, a campanha abordou fatos reais, criando uma identificação com experiências vividas por pessoas comuns. Essa estratégia contribuiu para uma maior empatia e engajamento com a mensagem transmitida, que tinha um forte apelo emocional. A agência Heads demonstrou sua expertise em criar uma narrativa estratégica, que desempenhou um papel fundamental no sucesso da campanha. Assim, ela conseguiu se conectar tanto com o público conservador, preservando sua fidelidade, quanto com outros segmentos que a marca buscava alcançar, utilizando da narrativa romântica e supostamente diversa para criar uma impressão de inclusão e empatia.

A crença de que o amor está vinculado à beleza e que a aparência depende da vaidade pode acarretar consequências problemáticas. Isso gera uma expectativa de que as pessoas devem se preocupar com sua aparência física de uma determinada maneira e a qualquer custo, a fim de serem amadas, aceitas e alcançarem a felicidade. Essa pressão pode levar à insatisfação com o próprio corpo, à busca por padrões estéticos inatingíveis e ao consumo excessivo de produtos de beleza. Empresas como O Boticário têm interesse em fomentar esses sentimentos nas pessoas, para que continuem consumindo seus produtos. Essa concepção também menospreza outras formas de beleza que não estão relacionadas à vaidade, prejudicando a autoestima de pessoas que não têm acesso aos recursos necessários para alcançar esses padrões. Essa situação é exacerbada pela lógica capitalista que permeia essas empresas, muitas vezes priorizando o lucro em detrimento do bem-estar, e para isso, todos os recursos são utilizados.

Associar a feminilidade à maquiagem pode ser problemático, pois reforça um estereótipo de gênero que vincula as mulheres à aparência e aos cuidados estéticos. Isso limita a liberdade e a autonomia, que podem sentir-se pressionadas a se maquiar para se sentirem femininas e aceitas pela sociedade. Além disso, essa ideia exclui outras formas de feminilidade que não estão relacionadas à maquiagem, bem como mulheres que simplesmente não sentem essa necessidade ou até mesmo o uso de maquiagem por homens. Ao enfatizar esses conceitos como estratégia, inevitavelmente se desencadeiam essas consequências, fazendo com que as pessoas consumam acreditando que estão alcançando uma verdadeira visão do feminino e da beleza, quando na verdade isso não existe.

Da mesma forma, a ideia de que o amor precisa ser eterno cria uma visão idealizada e romântica dos relacionamentos. Isso pode levar à dependência emocional, dificuldade em lidar com conflitos e mudanças, e resistência em terminar um relacionamento que não é mais saudável ou satisfatório. Além disso, essa ideia desconsidera outras formas de amor que não estão necessariamente ligadas à eternidade ou ao romantismo, como outras formas de relações sociais igualmente importantes. Também ignora outras formas de admiração que vão além da ideia de morar junto e construir uma família. 

Expandindo a visão de relacionamentos e do desejar

É possível estabelecer um vínculo com alguém com base em outros objetivos que não estejam necessariamente ligados a essas normas pré-estabelecidas. O amor pode contemplar desejos sexuais ou afetivos que não se enquadram nessas normas, e existem outras formas de relacionamentos significativos que não se encaixam na ideia do "verdadeiro amor" a ser alcançado, mas é tão importante quanto, e muitas vezes até mais estável. A estratégia da empresa O Boticário serve como um exemplo de como todas essas ideias se conectam para criar uma visão de sucesso que vai além dos relacionamentos românticos. Existe uma pressão subjacente para construir uma carreira bem-sucedida, a fim de ter recursos para formar uma família, onde um relacionamento amoroso perfeito se torna o centro de tudo, enquanto outras relações são relegadas a um segundo plano, no mínimo. No entanto, é fundamental questionar se essa é a única forma de felicidade e realização na vida.

O problema reside no fato de que essa estrutura cria perspectivas que acreditamos ser a nossa própria verdade, pois somos constantemente expostos a essas mensagens desde a infância, seja por meio de propagandas ou de influências religiosas. No entanto, nem todo mundo deseja seguir o mesmo caminho ou compartilhar as mesmas prioridades. É importante reconhecer que cada indivíduo possui desejos, sonhos e necessidades únicas, que podem se estender além do estereótipo de uma vida centrada em relacionamentos amorosos e sucesso profissional convencional. Devemos questionar e explorar diferentes perspectivas de felicidade e realização, buscando uma visão mais ampla dos fatos e relacionamentos. 

É essencial reconhecer que a vida é diversa e que as pessoas encontram satisfação e plenitude em aspectos diferentes de suas vidas. A coletividade é importante, e outras formas de relação também abrangem aspectos libidinais, de afeto e até mesmo sexuais, a diferença é que nunca aprendemos a compreender tudo isso considerando a construção de uma subjetividade cheia de especificidades e experiências. Dentro da estrutura capitalista, há uma intensificação do relacionamento heteronormativo, em que os homens sentem-se obrigados a personificar um arquétipo específico, direcionando sua energia sexual para o poder e assumindo objetivos conflituosos. Por outro lado, as mulheres são pressionadas a direcionar sua energia vital para um relacionamento com uma única pessoa, expandindo-o apenas para a criação de uma família. As outras relações ou construções são consideradas secundárias e vêm somente após esse roteiro estar supostamente estabelecido.

Essa dinâmica transcende nossas crenças atuais, sendo uma construção simbólica que se perpetuou ao longo de séculos e se transformou em uma idealização, impulsionada pelo conceito do "sonho americano" e personagens icônicas como Marilyn Monroe. A publicidade desempenhou um papel fundamental na manutenção de uma visão patriarcal e sexista, que serve de base para o sistema capitalista, buscando centralizar o poder em um único ponto e direcionar nossas energias vitais para objetivos que nem sempre compreendemos ou construímos, mas apenas executamos. É importante reconhecer que essa estrutura social é moldada por forças históricas e ideológicas complexas. Ao questionarmos as normas e os papéis de gênero impostos, abrimos espaço para expandir nosso pensamento, rompendo com as expectativas pré-definidas e descobrindo novas possibilidades e propósitos. Mesmo quando tentamos desconstruir essa estrutura, percebemos que ela ainda se mantém e é alimentada, inclusive em formas ou ideologias que buscam modificá-la. É comum observar uma apropriação do discurso da não-monogamia que acaba reproduzindo a mesma ideologia, apenas em estruturas diferentes. 

Desconstruir a visão monogâmica patriarcal intrínseca ao capitalismo vai além de simplesmente se relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo ou fazer acordos com parceiros. É crucial compreender que a estrutura que sustenta essa visão, composta por aqueles que se beneficiam dela, não se importa em fazer pequenas modificações em discursos conservadores, desde que o objetivo final seja preservado. Essa estrutura está profundamente enraizada em nossas manifestações de desejos e de energia vital, indo muito além das relações interpessoais. Desafiar essa estrutura implica questionar não apenas os padrões tradicionais de relacionamento que impõem uma visão monogâmica e heteronormativa do amor, mas também as normas de consumo que nos objetificam, reduzindo-nos a meras mercadorias e nos submetendo a padrões estéticos inatingíveis. Além disso, envolve questionar a exploração de recursos humanos e naturais, que gera desigualdades sociais e ambientais em benefício de interesses individuais. 

Isso requer uma análise crítica das dinâmicas de poder e das opressões que sustentam o sistema capitalista e que moldam algumas estruturas de nossa mente, com o objetivo de nos limitar intelectualmente e impedir a compreensão de nosso verdadeiro potencial. Ao redirecionarmos nossa vitalidade para outras formas de relacionamentos e experiências que vão além das estruturas convencionais, abrimos espaço para explorar diferentes formas de conexão humana e desafiar a ideia de que o valor de uma pessoa está intrinsecamente ligado a valores morais capitalistas. Essa jornada nos convida a repensar nosso propósito e descobrir uma autenticidade verdadeira, alinhada com a construção individual de cada um.

Nesse processo, é importante buscar perspectivas críticas, ampliar nosso conhecimento e engajar-se em diálogos construtivos. Somente assim poderemos começar a desmantelar essas estruturas opressivas e criar um futuro mais inclusivo, onde cada indivíduo tenha a liberdade de definir sua própria jornada de vida, em vez de nos prendermos a um único modelo de sucesso baseado em funções sociais tradicionais, devemos nos permitir explorar uma variedade de experiências e definições pessoais de realização. Isso pode envolver valorizar relacionamentos de amizade, comunitários, sexuais, ou uma mistura de diversos papéis que podem ser construídos através de outros objetivos em conjunto, e não apenas o de construir uma família com a estrutura patriarcal que favorece a propriedade.

Ao reconhecer a existência de outras formas de relacionamento que oferecem apoio e afeto, abrimos possibilidades para contribuir para uma transformação social mais ampla. Essas relações podem abranger uma ampla gama de sentimentos e maneiras de desejar a presença do outro. Essa compreensão mais abrangente nos permite escapar das pressões sociais que nos são impostas. Ao buscar uma compreensão mais profunda do que significa se relacionar e construir vínculos afetivos, rompemos com as estruturas estabelecidas e criamos espaço para uma subjetividade autêntica. Essa abertura nos fortalece em nossa relação com nós mesmos, permitindo-nos explorar nossa individualidade e atender às nossas necessidades pessoais, mas sem desrespeitar o outro, já que nos desapegamos de projeções idealistas. Quando nos libertamos das expectativas sociais limitadoras, podemos construir relacionamentos baseados no respeito mútuo, na comunicação aberta e na aceitação sincera. Essas conexões nos proporcionam suporte emocional e nos permitem florescer como indivíduos. 

Deve-se destacar que essa compreensão ampliada e a busca pela autenticidade não estão exclusivamente ligadas à escolha entre relacionamentos monogâmicos ou não-monogâmicos, nem estão restritas a práticas específicas, como swing ou ménage à trois. Desconstruir a monogamia vai além do status do relacionamento ou de práticas sexuais que realizamos. Reconhecer que mesmo essa perspectiva ampliada às vezes coloca uma única relação no centro de tudo, e às vezes até acima da construção da nossa subjetividade, e repercute a ideia de que outras formas de construção de relações são secundárias. 

Cada relação possui sua própria importância e construção, baseada no respeito mútuo e no entendimento do valor que cada pessoa representa em nossas vidas. Não se trata de impor papéis específicos a serem desempenhados para preencher lacunas sociais. Isso nos leva a exigir menos dos outros e de nós mesmos, reconhecendo que todos nós cometemos erros, mas também aprendemos com cada experiência. As pessoas que entram em nossas vidas, trazem consigo uma conexão única e valiosa. É fundamental valorizar e respeitar todas as formas de relacionamento, independentemente de sua natureza, seja amizade, família, parcerias românticas ou qualquer outra. Ao nos libertarmos das expectativas sociais, somos capazes de apreciar a singularidade de cada relação e construir laços significativos e autênticos dentro de cada contexto específico em que essas relações se desenvolvem. Ao priorizarmos a qualidade das conexões em vez de aderir a padrões predefinidos, podemos desenvolver relacionamentos genuínos que nos enriquecem emocionalmente e nos permitem crescer como seres humanos e seres sociais. 

Trata-se de construir nossa própria subjetividade e refletir isso em nossos relacionamentos, independentemente de optarmos por direcionar nosso desejo sexual exclusivamente a uma pessoa ou explorar outras possibilidades. Não há problema algum em seguir qualquer desses caminhos, desde que construamos relacionamentos autênticos. Baseados na confiança e no diálogo genuíno, mas também em compreender que a construção de nossa identidade vai além do relacionamento amoroso e das próprias relações em si. O meio nos afeta, e somos afetados pelo meio, isso constrói nossa perspectiva sobre nós mesmos, nossos sentimentos, desejos, afetos e a própria visão que temos da vida. Devemos também considerar as opressões que nos afetam e evitar buscar respostas prontas que não abordam a complexidade de nossas experiências. Ao invés de nos submetermos a padrões preestabelecidos, é importante construir relacionamentos com sinceridade, sem trairmos a nós mesmos. Devemos buscar compreender nossas próprias necessidades e expectativas, bem como respeitar as necessidades e limites dos outros. 

Desconstruindo as normas de relações e liberdade através da Filosofia e Psicologia 

A ideia de relacionamento que baseia a monogamia é também uma forma de sustentar o sistema capitalista, que se beneficia da alienação e da submissão dos indivíduos ao ideal de amor romântico e à moral burguesa. Deleuze e Guattari falam sobre a monogamia e o desejo em sua obra O Anti-Édipo, onde criticam a psicanálise freudiana e lacaniana por reduzirem o desejo a uma falta e a um complexo de Édipo. Para eles, o desejo é uma produção criativa de potencial enorme, que não se limita a um objeto ou a uma forma fixa, mas que se expressa em múltiplas conexões e fluxos. Nessa perspectiva, a monogamia é entendida como um mecanismo de controle e padronização do desejo, que estabelece um único modelo de relacionamento, fundamentado na família nuclear e na heterossexualidade, e que se articula com conceitos que visam a preservação do acúmulo de capital.

Deleuze e Guattari propõem, então, uma esquizoanálise, que visa liberar o desejo de suas amarras edípicas e sociais, e explorar suas potencialidades revolucionárias e criativas. Eles defendem uma concepção de amor como multiplicidade, que não se restringe a um parceiro ou a uma identidade, mas que se abre para outras formas de afeto e de sexualidade. Eles também defendem uma concepção de desejo como máquina, que não se subordina a um fim ou a um sentido, mas que funciona como uma força produtiva e transformadora. Eles afirmam que o desejo é esquizofrênico, no sentido de que ele rompe com as estruturas rígidas e hierárquicas da sociedade, e cria novas linhas de fuga e de devir.

A fuga e o devir são ideias importantes na filosofia de Deleuze e Guatari. Elas nos ajudam a pensar sobre como o desejo e a forma como nos entendemos como indivíduos, originalmente, não usam hierarquias ou representações. Refere-se a nossas formas de escapar das limitações e restrições que são impostas a nós pela sociedade e pelas normas estabelecidas, que são insustentáveis. É uma maneira de romper com as expectativas e buscar novas possibilidades de existência. 

A fuga é a capacidade de escapar das estruturas rígidas e opressivas que criam padrões específicos a serem alcançados, que possuem tarefas de repressão:

▷ O Estado, a família, a religião, a linguagem costumam representar os padrões que reprimem o desejo, e muitas vezes nos despertam a necessidade dessa fuga como mecanismo criativo do sujeito;

▷ A fuga é um movimento de desterritorialização, que desfaz as identidades fixas e as relações estáveis, e cria novas possibilidades criativas de existência. 

O devir significa tornar-se algo diferente, em vez de permanecer sempre o mesmo: 

▷ É a ideia de que estamos em constante transformação e que nossas identidades e desejos estão em fluxo, em um processo contínuo de se tornar algo novo;

▷ É a expressão do desejo como uma força criativa e transformadora, que não se limita a um objeto ou a uma forma fixa, mas que se expressa em múltiplas conexões e fluxos; 

▷ O devir é um processo de se diferenciar dessas normas, criando novas formas de vida e de pensamento, que não se baseiam na semelhança ou na filiação, mas na singularidade e na experimentação.

Um exemplo de fuga e devir na literatura é a obra Moby Dick, de Herman Melville, que Deleuze e Guattari analisam em Mil Platôs. Nessa obra, o capitão Ahab persegue obsessivamente a baleia branca que lhe arrancou a perna, em uma viagem que o leva a romper com as normas da sociedade civilizada e da racionalidade humana. Ahab entra em um devir-baleia, que não é uma imitação ou uma identificação com o animal, mas uma relação de intensidade e de afeto, que o faz experimentar uma nova forma de existir no mundo. A baleia, por sua vez, representa uma fuga das categorias humanas, uma força indomável e misteriosa, que desafia os limites do conhecimento e da linguagem.

A ideia de Máquina Desejante também é uma metáfora usada pelos autores para descrever como os desejos e as relações humanas funcionam. Eles propõem que o desejo não é algo individual ou interno, mas sim um processo social e coletivo que se desenvolve através das interações entre pessoas e coisas no mundo. Uma máquina desejante é uma espécie de mecanismo complexo que produz e transforma desejos, ela é composta por elementos como indivíduos, instituições, ideias, objetos e até mesmo palavras. Esses elementos se conectam e interagem uns com os outros, formando uma rede de relações em constante mudança. Aqui conseguimos fazer uma relação com a influência da publicidade que citei anteriormente. 

A publicidade funciona como uma parte da máquina desejante, estimulando nossos desejos e direcionando-os para a compra de produtos específicos. Mas a máquina desejante não se limita apenas ao consumo, ela está presente em todas as áreas da vida, nas relações afetivas, nas instituições sociais, na cultura e assim por diante. Deleuze e Guattari argumentam que a máquina desejante é uma forma de resistência e criação, mas também pode ser uma fonte de opressão e controle. Eles nos convidam a refletir sobre como os desejos são produzidos e como podemos nos libertar das formas de dominação impostas.

Deleuze analisa em Lógica do Sentido a obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Nessa obra, Alice cai em um buraco que a leva a um mundo fantástico e absurdo, onde ela encontra personagens e situações que desafiam a lógica e o senso comum. Alice entra em vários devires, que não são mudanças de tamanho ou de forma, mas mudanças de sentido e de intensidade, que a fazem experimentar uma nova forma de pensar e de sentir. O País das Maravilhas representa uma fuga das categorias humanas, uma força caótica e criativa, que desafia os limites da linguagem e da representação. O Dia dos Namorados pode ser visto ainda como uma forma de alienação do desejo, que faz os indivíduos se sentirem incompletos ou infelizes se não tiverem um parceiro ou uma parceira. 

Para desconstruir essa visão capitalista e edipiana das relações, e representada no Dia dos Namorados, podemos nos inspirar na esquizoanálise e buscar outras formas de expressar o nosso desejo e as nossas relações. Podemos valorizar as conexões afetivas que temos com outras pessoas, sem nos limitarmos a uma única pessoa ou a uma única identidade. Devemos explorar as diferentes formas de amor que existem, sem nos restringirmos a uma única forma ou a um único sentido. Podemos criar as nossas próprias datas para celebrar o nosso desejo, sem nos submetermos às imposições do mercado ou da sociedade. Assim, podemos construir uma visão autêntica do desejo e das relações, que não seja baseada na falta ou na culpa, mas na produção e na experimentação. Uma visão que não seja baseada na repressão ou na adaptação, mas na liberação e na diferenciação. Uma visão que não seja baseada na alienação ou na submissão, mas na criação e na transformação.

Autora: Mariane Regina Salles Panek
@panekpsi
Psicóloga Comunitária
CRP 08/32713